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segunda-feira, 17 de maio de 2010

DIAS CONTADOS (I)

(ou: Quem tem medo do livro digital?)

Há alguns dias estive assistindo a uma mesa redonda sobre o livro digital no Brasil, na Bienal do Livro de Minas Gerais. Na mesa, além do escritor, pesquisador e blogueiro Galeno Amorim - grande especialista no tema livro e leitura no Brasil - , representantes da Câmara Brasileira do Livro, Instituto Pró-Livro e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Na plateia, livreiros, editores, autores e interessados em geral.

Resumo da ópera: tive de me segurar, pra não ter um troço.

Não que eu tenha um pé cravado no passado e, por pura nostalgia ou saudosismo, rechace qualquer possibilidade de substituição do livro de papel pelos e-books. Também não pretendo oferecer qualquer resistência à nossa evolução semeando irremovíveis obstáculos ao avanço das novas tecnologias. Assim caminha a humanidade – pra frente – e, se assim não fosse, ainda estaríamos batendo pedrinhas pra fazer fogo.

Faço coro com o senso comum de quem avalia com pragmatismo e sem paixão o advento do livro digital. Ele não tem o (mesmo) charme, a praticidade, a portabilidade do livro de papel, que podemos levar para a cama, para a rede, para a praia, para a roça, para o barco, para o trem, para o avião, para o ônibus, para a banheira... (Seria difícil até para apresentá-lo na portaria da Bienal do Livro de Minas Gerais, onde é exigido aos escritores que não sejam os convidados da organização geral do evento, mas das editoras expositoras, que apresentem um livro de sua autoria para comprovar a sua condição de escritor.) Mas o livro digital tem lá seu charme próprio: é moderno (ou pós), chique, de enorme capacidade e diversidade de conteúdo e, sobretudo, interativo.

E é quando ouço essa última palavra como argumento qualitativo que meus pelos se eriçam e minha pulsação se acelera.

LITERATURA OU OUTRA COISA?

Antes, porém, de voltar minhas baterias nessa direção, insisto: sou simpático ao livro digital e tenho as melhores expectativas a seu respeito. Já cheguei a comentar como ele poderá ser muito prático, por exemplo, a um estudante de Medicina ou de Direito, que poderá ser poupado de carregar sua mochila com pesadíssimos atlas de anatomia ou o vade mecum do Código de Processo Civil. Livros de referência, dicionários, enciclopédias, catálogos, livros de arte e, muito especialmente, livros didáticos estão irremediavelmente fadados a migrar para o novo formato – com inestimáveis ganhos para o usuário. E, nesses casos, a hipernavegação por quase infinitos links possíveis será muito mais que um charme específico do novo suporte, mas uma necessidade dos novos tempos (ou não o terá sido, sempre?).

Estou chegando ao ponto: a literatura no novo formato. E, principalmente, a literatura que se pretende produzir para crianças e jovens, em formato digital.

Tenho lido ou ouvido de alguns especialistas – e até de escritores do gênero – que a literatura para crianças será muito mais rica de possibilidades, com o novo formato. Acreditam que a criança poderá interagir com o texto, a narrativa, as ilustrações e que tudo isso será muito rico. Os autores, se quiserem ser bem sucedidos no ramo, terão que se adaptar aos novos tempos, à nova linguagem, ao novo leitor e ao novo tipo de livro que dominará o mercado em poucos anos.

Mas, como autor de literatura para crianças, pergunto: do que estamos falando, afinal? De livros? De escritores? De leitores?

Não, certamente. No cenário acima descrito, o livro terá sido substituído por um brinquedo, algum tipo de game. No lugar de escritores teremos uma espécie de produtores de conteúdo digital interativo para crianças. E, na outra ponta, não teremos mais leitores, mas experts em operar mecanicamente comandos interativos múltiplos.

(Pequena pausa para refletir.)

DESVIOS E DESCAMINHOS

Esse preocupante porvir me remete, inevitavelmente, à imagem de Carlitos apertando porcas compulsivamente, em Tempos Modernos, incapaz de formular qualquer pensamento autônomo e crítico sobre a realidade em que está inserido como indivíduo. Totalmente manipulável, a personagem Carlitos é apenas uma máquina em pele humana, uma peça de uma engrenagem operada remotamente. Chaplin, genial artista do século passado, já previa esse futuro temeroso, em que o indivíduo seria privado de qualquer senso crítico e questionamento em favor de uma alta especialização no exercício de atividades mecânicas e burocráticas que servem apenas a um sistema produtivo e capitalista.

Livros digitais para crianças, que as privem da fantasia, da percepção do abstrato e do intangível, de uma possibilidade de reflexão crítica em nome de uma prioritária e compulsória interatividade não estão longe dos sombrios tempos modernos de Chaplin. Descaminhos pseudoliterários como luzinhas coloridas piscando, efeitos sonoros, quiçá odores e texturas (sabe-se lá o que ainda se pode inventar para o formato digital...), hiperlinks que conduzirão as crianças a informações desnecessárias à plena fruição da leitura e tantos outros desvios me assustam, como escritor.

No cenário que se desenha, a palavra perderá peso e relevância; formaremos não-leitores – se não analfabetos. Na faculdade – que concluí recentemente – convivi com jovens que poderiam ser meus filhos. Nas aulas sobre Cinema, era clara a resistência dos colegas em assistir clássicos de Chaplin, Griffith, Murnau – e até em reconhecer qualidades artísticas e estéticas em seus filmes. Os motivos? Variavam de “não tem diálogos; fica difícil entender a história”; “a câmera não mexe, é tudo muito parado”; “os efeitos especiais são ‘toscos’”; e até – pasmem! – “é preto e branco”. Não é difícil imaginar as dificuldades que terão, quando adultas, as crianças “formadas” na leitura de “livros digitais interativos”, ao se depararem com a leitura obrigatória de Guimarães Rosa para um vestibular...

A polêmica sobre a interatividade não acaba aqui. Isso é apenas o começo.



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POEMA DE AMOR CONFESSO (DECLARAÇÃO PARA OS DEVIDOS FINS)

tira-gosto #1

"Então, aqui estou: nu
como quem é dado à luz

cego que tateia a treva

cigano que compra casa.

Então, aqui estou: todo
que se faz em partes

folha que o vento leva

cinza que envolve a brasa."


Fragmento do livro POEMA DE AMOR CONFESSO (DECLARAÇÃO PARA OS DEVIDOS FINS)
(Prêmio Elpídio Câmara de Poesia/2000, editado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife/2001).
Edição esgotada. Disponível para novos editores.