Ecos do parecer do Conselho Nacional de Educação sobre o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato
Os recentes acontecimentos sobre o veto do CNE à obra de Lobato reforçam minha oposição ao uso didático-pedagógico que alguns setores ligados à Educação insistem em fazer da literatura – especialmente daquela voltada para crianças e jovens. Parece claro que desejam ver a literatura a serviço de propósitos políticos ideológicos particulares, desvirtuando os mais nobres fins da obra literária, como a interpretação autônoma e livre do que se lê.
Não obstante os inaceitáveis vetos de conteúdo sugeridos, alguns defendem a inclusão de bulas prévias para a leitura, que nada mais são que um modelo de dirigismo ideológico para manietar o leitor em formação, impedindo o desenvolvimento do seu senso crítico e transformando-o, futuramente, em cordata massa de manobra.
Quaisquer das alternativas apresentadas até agora – veto à obra ou inclusão de bula para leitura – configuram, a meu ver, um velado retorno da censura à nossa produção artística e cultural, o que deve ser veementemente repudiado por todos que prezam a liberdade e por ela têm lutado nesse país.
Talvez seja oportuno lembrar ainda que setores governamentais também se mobilizam para expropriar a produção intelectual de escritores e artistas, através de uma inusitada e obscura revisão da Lei de Direitos Autorais. Igualmente, tais mudanças inviabilizariam ou neutralizariam a expressão artística de modo plural e autônomo. Apenas uma coincidência ou orquestração articulada?
Nesse cenário nebuloso que se desenha para o futuro, chega a ser irônico que autores e artistas em geral, possam se valer de uma canção de um velho compositor baiano que está ligado à gênese de tudo o que estamos vendo agora:
“Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte...”


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